| Além das Lágrimas |
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Além das Lágrimas Em 1968, caminhando pelas ruas do centro velho de São Paulo, encontrei no chão um pequeno pedaço de papel que chamou a minha atenção. Nele havia um texto que me deixou maravilhado. Era uma definição sobre a guerra, a melhor que conheço. Dizia: “A guerra é o meio onde os que não se conhecem, se matam, em benefício daqueles que se conhecem, e não se matam”. Pura realidade. Quando a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) terminou, em 04 de julho de 1945, o mundo parou para chorar seus mortos. As nações envolvidas no conflito começaram a reconstruir seus campos e suas cidades devastadas por canhões, bombas, tanques, morteiros e granadas. A Segunda Guerra Mundial é considerado o maior conflito armado de todos os tempos. Dela participaram nações de todos os continentes. De um lado, as do Eixo, lideradas pela Alemanha de Hitler e Itália de Mussolini, invadindo nações fracas e indefesas, incapazes de se defenderem sozinhas. Do outro, as Aliadas, lideradas pelos Estados Unidos da América, França, Inglaterra e Rússia, e que, a partir de 1944 contaram, também, com a participação do Brasil, no território italiano, ao lado do V Exército Americano. A Polônia foi o primeiro país da Europa a ser invadido pelos exércitos alemães, em 01 de setembro de 1939. E foi também o primeiro a sofrer os horrores da guerra. E os judeus, antes dela. Em 01 de abril de 1938, antes da guerra declarada, os judeus sentiram diretamente na carne o ódio de Hitler para com eles, quando começaram a sofrer as primeiras discriminações oficiais. Antes da invasão da Polônia, Hitler, o rosto mais filmado e fotografado da história, disse a seus soldados: “Fechem seus corações para a piedade! Sejam brutais! Oitenta milhões de pessoas têm de receber o que lhes cabe. Sejam duros! O mais forte sempre tem razão”. E escravizou 7,5 milhões de civis e dois milhões de prisioneiros de guerra, para trabalhar para o III Reich. Em 22 de junho de 1941, os nazistas aprovaram o plano do violento toxicômano (usava morfina) e amante de fardas vistosas, Hermann Wilhelm Goering (1893-1946), comandante da Luftwaffe, a Força Aérea, e braço direito de Hitler, chamado a “Solução Final”, que consistia na deportação em massa e no extermínio total de todos os judeus da Europa... E da Rússia também. Goering era o mais popular líder nazista de então e Hitler o tinha escolhido para ser seu sucessor. Eram vistos sempre juntos. Em dezembro daquele ano, a Ucrânia torna-se a primeira vítima das câmaras de gás móveis dos alemães, que criaram campos de Concentração e de Extermínio em vários pontos da Europa. Foram construídos campos na Alemanha, Alsácia, Áustria, Países Bálticos, República Tcheca e Polônia. Os da Alemanha eram BERGEN-BELSEN (35 mil mortos), BUCHENWALD (56 mil), DACHAU (32 mil), DORA-MITTELBAU (20 mil), FLOSSINBURG, ORANIENBURG-SACHSENHAUSEN (60 mil), NEUENGAMME e RAYENSBRUECK (90 mil); da Alsácia, NATZWILLER-STRUTHOF; na Áustria, MAUTHAUSEN; nos Países Bálticos, KAUNAS e RIGA (meu antigo professor de Contabilidade, na cidade de São Paulo, Jorge Frederico Walting, era de Riga, capital da Letônia, mas sua família fugiu para o Brasil durante a guerra – a Letônia foi incorporada à URSS em 1941 e só conquistou sua liberdade em 1991, pouco antes da dissolução da União Soviética. Publicações judaicas sobre o holocausto falam que de janeiro a maio de 1945, com o fim da guerra, os aliados libertaram mais de 200 campos de concentração e extermínio. Majdanek foi construído em 1941, como campo de concentração e, a partir de 1942, passou a ser um campo de extermínio. Estima-se que em Majdanek morreram entre 360 mil a 500 mil homens, mulheres e crianças, em suas sete câmaras de gás, além das vítimas de inanição, maus-tratos e péssimas condições de higiene. Há alguns anos a polícia alemã prendeu em Stuttgart, Alemanha, o ex-Oficial das SS (Schutzstaffel) e membro da Gestapo (Geheime Staatspolizei), a polícia secreta do Estado, as “milícias negras”, comandadas com mãos de ferro por Heinrich Himmler (1900-1945). O preso era Alfons Goetzfried, de 78 anos. Ele confessou ter fuzilado pessoalmente 500 pessoas no campo de extermínio de Majdanek, na Polônia. Heirich Himmler, um ex-engenheiro agrônomo (era granjeiro) e excessivamente brutal, foi quem criou o primeiro campo de concentração da Alemanha nazista, DACHAU, na década de 1930, dando início à chamada “rede de terror”, com que Hitler eliminava seus inimigos políticos. Como Ministro do Interior durante a guerra, criou o braço armado das SS, a Waffen-SS (que atuava em campanhas externas e incorporava até estrangeiros). As SS eram as tropas de elite, com 35 divisões (alguns falam em 38), para consolidar o Partido Nazista e o poderio do Heer (Exército regular) alemão. Em janeiro de 1945, com a aproximação do Exército Vermelho, na Alemanha, muitos prisioneiros judeus de Auschwitz foram assassinados pelos guardas, com medo de testemunharem contra eles, mostrando para os Aliados como era a vida ali e como eram assassinados nas câmaras de gás e incinerados nos formos crematórios. Os 58 mil restantes foram forçados a longas marchas para o interior da Alemanha. A maioria morreu de fome, sede e cansaço pelo caminho... Ou, então, fuzilada sumariamente. E quando os Aliados chegaram e libertaram os campos de concentração e extermínio, encontraram prisioneiros adultos que pesavam apenas 28 quilos. Quando a Alemanha se rendeu na Itália, em 02 de maio de 1945, e o Japão assinou a rendição na baía de Tóquio, no dia 02 de setembro do mesmo ano, o mundo tomou conhecimento dos horrores e das atrocidades da guerra: 20 milhões de crianças sem pais, sem falar naquelas que as estatísticas oficiais não contaram e que foram exterminadas sem piedade (nos dias 29 e 30 de setembro de 1941, na região de Babi Yar, nas proximidades de Kiev, Ucrânia, soldados alemães executaram, com tiros, 33.771 judeus – homens, mulheres e crianças; e na Lituânia e na Bielorrússia, de julho a dezembro do mesmo ano, 133.346). Eu morava na cidade de São Paulo, quando o antigo sargento da SS, Gustav Franz Wagner, subcomandante (comandante adjunto ou supervisor) do campo de extermínio de Sobibor, na Polônia, foi descoberto e preso no Brasil, onde vivia tranqüilamente num pequeno sítio nos arredores de Atibaia, a 69km da cidade de São Paulo. Estima-se que em Sobibor morreram mais de 250 mil judeus nas câmaras de gás, na chamada Operação Reinhard (Aktion Reinhard). A Operação Reinhard, à qual Franz Wagner foi incorporado, foi criada pelo SS Reinhard Heydrich (1904-1942), o cruel chefe da Polícia Secreta de Segurança, Gestapo, e da SD (Sicherheitsdienst), a Polícia de Segurança do Serviço de Inteligência da SS, em 20 de janeiro de 1942, durante a Conferência na Vila de Wannsee, um palacete no sudoeste de Berlim, de onde se avistava o lago do mesmo nome, para por em prática “a solução final ao problema judeu” ou “solução final da questão judia” (Endlösung der Judenfrage). Reinhard Heydrich foi nomeado “Protetor do Reich” na Boêmia e na Moravia, mas foi assassinado pela resistência tcheca em 1942, o que motivou terrível represália de Hitler contra os tchecos, com a morte de muitos deles. Gustav Fraz Wagner traiu-se em 30 de maio de 1978 ao comparecer, como Günther Mendel, ao DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), de São Paulo, para desmentir uma denúncia, de que participara de uma festa no Sul do País, para comemorar o aniversário de Adolf Hitler. Um sobrevivente de Sobibor, “o Campo da Morte”, viu o rosto dele na televisão, ao se apresentar ao DOPS, e o reconheceu imediatamente. Dirigiu-se para lá e o desmascarou, identificando-o oficialmente, como sendo o procurado criminoso de guerra, Gustav Franz Wagner. Foi preso na hora. Da cadeia, foi transferido para uma clínica psiquiátrica, de onde saiu dois meses depois. Em uma entrevista para a BBC de Londres, em 1979, Wagner não mostrou remorsos pelas atrocidades cometidas em Sobibor durante a guerra. Ele disse: "Eu não tinha sentimentos... Era só um outro trabalho. À noite, nunca discutia o nosso trabalho, mas apenas bebia e jogava cartas". O Marechal-de-Campo inglês Bernard Law Montgomery (1887-1976), que comandou as forças inglesas, americanas e canadenses que desembarcaram nas praias da Normandia (costa norte da França) no chamado Dia D (Decision Day), em 06 de Junho de 1944, para libertar a França do jugo nazista, também escreveu diversos volumes de memórias da guerra. Com a ofensiva dos Aliados, em bloco, no mês de junho, em agosto Paris foi libertada. O “Dia D” foi a maior operação militar de todos os tempos, com a participação de 175 mil soldados anglo-saxões: americanos, ingleses e canadenses. O General norte-americano George Smith Patton (1885-1945), também escreveu sobre a guerra. Suas memórias “Was as I Knew” (A Guerra que eu Conheci), foram publicadas em 1947, dois anos após sua morte, ocorrida a 21 de dezembro de 1945, num hospital de Heidelberg, vitimado por um acidente de carro em Mannheim, Alemanha. Tinha 60 anos de idade. O General Dwight David Einsenhower (1890-1969), Comandante Supremo das Forças Aliadas que desembarcaram na Normandia, ficou rico com o seu relato da guerra “Crusade in Europe” (Cruzada na Europa), publicado em 1948. Mas um dos mais pungentes relatos da Segunda Guerra Mundial seja, possivelmente, o do escritor norte-americano Cornelius Ryan, no livro “Uma Ponte Longe Demais”, transformado em filme em 1977. Depois da vitoriosa invasão da Normandia, os Aliados desejavam acabar a guerra o mais rápido possível. Havia, no entanto, dois problemas a superar, sendo um de logística e, outro, de convivência humana, envolvendo duas altas patentes dos exércitos Aliados. Primeiro, o suprimento das tropas era trazido da Normandia, a 644km de distância, refreando o avanço dos Aliados. Segundo, o Marechal inglês, Bernard Law Montgomery, que estava no norte, e o polêmico General norte-americano, George S. Patton, que estava no sul, se detestavam intensamente. E, para piorar, cada um queria chegar primeiro a Berlim e receber os louros da vitória. Em setembro de 1944, o Marechal Montgomery, lança o plano da Operação Market Garden (Operação Mercado Jardim – Mercado, o elemento aéreo e, Jardim, as forças terrestres), para encerrar o conflito até dezembro e, se possível, até o Natal, invadindo a Alemanha pela Holanda e destruindo as indústrias de guerra do III Reich, no Ruhr, o coração industrial da Alemanha. Os Aliados cortariam, também, a mobilidade do III Reich, com a tomada das pontes de Eindhoven, Nijmegen e Arnhem. A Operação Mercado Jardim foi a maior operação via aérea dos Aliados depois do Dia D, quando desembarcaram na Normandia, em socorro da França. Os alemães, principalmente o Marechal-de-Campo Model (Otto Moritz Walter Model – 1891-1945) achavam que Patton comandaria o ataque (comandou o VII Exército Americano na Normandia) aos alemães, na Holanda. Mas, dando muita importância a si mesmo, Model achou que o alvo era ele. Puro engano. Os 35 mil soldados que partiram com aviões e planadores de 24 aeroportos de vários lugares, voaram 483km e saltaram 103 atrás das linhas inimigas, cujo alvo era tomar e guardar as pontes de Eindhoven, Nijmegen e Arnhem, sobre o rio Reno, na Holanda, impedindo o avanço dos alemães. Alguns imprevistos, como o clima e o local de pouso dos paraquedistas, prejudicaram a Operação. Mas o Marechal Montgomery achou que o plano teve noventa por cento de êxito. O cinema contou a guerra e seus horrores, através de filmes como O Julgamento em Nuremberg, Uma Ponte Longe Demais, A Lista de Schindler, Platoon, Os Canhões de Navarone, A Ponte do Rio Kwai, Adeus às Armas, Pearl Harbor, Os Doze Condenados, Tora, Tora, Tora, Lili Marlene, a série Holocausto e centenas de outros, milhares talvez. O teatro também contou a guerra, com várias produções retratando o drama de pessoas e famílias durante o conflito. The Sound of Music (A Noviça Rebelde), é sobre a história de Maria e do Barão Von Trapp, que fugiram da Áustria ocupada com os filhos, para não servirem ao regime nazista. O musical foi transformado em filme em 1965. A Segunda Guerra Mundial, também chamada Segunda Grande Guerra, terminou no dia 04 de julho de 1945, e nações de todos os continentes se envolveram no conflito. Mas, a 02 de maio de 1945 a Alemanha, que iniciou o conflito, invadindo a Polônia, se rende na Itália e, no dia 07, capitula. A 10 de agosto de 1945, o Japão se rende; no dia 14 do mesmo mês, capitula, e, no mês seguinte, no dia 02 de setembro de 1945, assina a rendição para os exércitos americanos, sob o comando do general Douglas MacArthur (1880-1964), autor de “Reminicences”, suas memórias de guerra, comandante das forças americanas no Pacífico, a bordo do encouraçado americano Missouri, fundeado na baía de Tóquio. E o III Reich: Wehrmatch (Exército), Luftwaffe (Força Aérea), Kriegsmarine (Marinha) e as Waffen-SS, que para Hitler duraria mil anos, durou apenas 12. Estima-se que a guerra ceifou cerca de 42 milhões de pessoas. E que o número real oscile entre 35 milhões a 60 milhões de mortos. Só a antiga União Soviética perdeu 17 milhões, entre soldados e civis. Todavia, acredita-se que o saldo final da guerra foi muito mais cruel e devastador do que o registrado pelas estatísticas da história: 55 milhões de mortos (incluindo o “Soldado Desconhecido”, que até hoje não se sabe de que nação era), 35 milhões de feridos, 20 milhões de órfãos, seis milhões de judeus dizimados e 190 milhões de refugiados. De 1947 até 1952, foram mais de um milhão de refugiados, vagando esperançosos por mais de 80 países, à procura de um novo lar. O Brasil perdeu 39 navios e teve um total de 1426 brasileiros mortos, incluindo os que lutaram nos campos da Itália, onde ficaram 451 combatentes, num cemitério de Pistóia. O primeiro brasileiro a morrer na guerra foi o conferente de navio, José Francisco Fraga, em 22 de março de 1941, metralhado no passadiço do navio TAUBATÉ, por um avião alemão, quando o Brasil nem cogitava entrar na guerra. Entre 1941 e 1942 os submarinos alemães torpedearam 34 navios mercantes brasileiros, até nos Estados Unidos da América. Citando apenas algumas nações que participaram do cenário de horror, morreram 9,5 milhões de civis na União Soviética, três milhões na Alemanha, três milhões na Polônia, 330 mil na França, 150 mil na Itália, além de seis milhões de judeus. E, finalmente, o mundo acordou do pesadelo da guerra naquele inesquecível dia 04 de julho de 1945, abrindo os olhos para uma nova era. A geografia política da Europa tinha mudado. Algumas nações deixaram de existir e outras surgiram sobre os escombros e o sangue derramado de milhões de combatentes... E inocentes que morreram. As nações envolvidas no conflito começaram a enterrar e a reverenciar seus heróis e remover os escombros das cidades destruídas, para reconstruí-las sobre as lágrimas dos que choravam seus mortos. Milhões de famílias inteiras morreram e milhões perderam tudo. Fernando de Almeida Silva
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